Memória Band – TV Bandeirantes se vira no improviso e implanta TV em cores após um incêndio fatal em 1969

O antigo Teatro Bandeirantes foi uma sede de emergência da TV Bandeirantes em 1969, após um incêndio fatal que destruiu todas as instalações da emissora no bairro do Morumbi, em São Paulo.

Imagens dos incêndios da Record, Globo e Bandeirantes em julho de 1969 | Reprodução: Notícias da TV – Daniel Castro

No intervalo de apenas três dias do mês de julho de 1969, TV Globo, TV Record e TV Bandeirantes viram suas instalações em São Paulo virarem cinzas. Para autoridades e executivos de TV, a destruição foi obra “criminosa” de guerrilheiros contra emissoras submissas ao Governo Militar (1964-1985). A participação da esquerda revolucionária nos três incêndios, no entanto, nunca foi provada.

A sequência incendiária começou na tarde de 13 de julho, um domingo. Palco das grandes realizações da Record, como os festivais de música, shows internacionais e atrações como o programa Jovem Guarda, o Teatro Paramount começou a  queimar. O prejuízo foi calculado na época em 600 mil cruzeiros.

Poucas horas depois, no início da noite, ardiam em chamas as instalações que a Globo herdou da TV Paulista na rua das Palmeiras, em Santa Cecília. Assim como na Record, o incêndio começou logo após a transmissão de um programa de auditório, no caso o de Silvio Santos.

A Globo já tinha acertado um esquema de ajuda da Bandeirantes, quando, três dias depois, o fogo dos “terroristas” deixava dez feridos e um prejuízo de 15 milhões de cruzeiros à emissora novata do Morumbi.

Cortejo fúnebre de Elis Regina passando na frente do antigo Teatro Bandeirantes | Reprodução: wangagutcomp.wordpress.com e Folha

“O incêndio ocorrido nos estúdios do Morumbi fez com que se alugasse às pressas o Cine Arlequim, na Av. Brigadeiro Luis Antônio, em São Paulo.

Toda a programação da TV Bandeirantes foi gerada a partir de um cinema, transformado rapidamente em Teatro Bandeirantes.

O único ônibus de externas, com equipamentos Marconi, foi ancorado no teatro e, pôr três ou quatro anos toda a produção foi feita de lá.

Em 1972, com a chegada dos equipamentos em cores, importados da Alemanha, improvisou-se, no então saguão de entrada da TV Bandeirantes do Morumbi, que não fora atingido pelo incêndio, estúdios para atender a programação colorida.

A história do teatro Bandeirantes seguiu a seguinte cronologia;

Alugou-se o cinema…
O ônibus de externas, preto e branco, simples e eficiente, foi acoplado na parte posterior do teatro.
A programação de emergência era realizada no espaço onde havia a tela do cinema.
Aos poucos transformou-se em palco.

Na sequência, foram construídos dois caixotões de tamanho médio, nos fundos da platéia, em suas laterais, para servir como estúdios e liberar o palco para a programação com auditório.

Onde ficavam as maquinas de projeção do cinema, transformaram em controle técnico da televisão.

Com a mesa de corte e as câmeras fixas da marca inglesa Marconi, já instaladas pode-se liberar o ônibus de externas para cobrir futebol e outros eventos.

Sobre a programação da época…

Filmes franceses e séries americanas fizeram parte da programação matinal e noturna da TV Bandeirantes naquela época.

À tarde, programas como, Jornal do Meio dia, A Cozinha Maravilhosa de Ofélia, Xênia e Você e à noite Os Titulares da Notícia, e assim por diante…

Estrategicamente, o uso das maquinas de Telecines, com seu baixo custo operacional, garantiam à televisão maior segurança e massa de programação no ar.

Posso afirmar,

Se a Bandeirantes ficou fora do ar, foi por poucos minutos, naquele momento trágico de sua existência.

Em tempo: Enalteço neste espaço a pessoa de Autilio de Oliveira, administrador e gestor do Teatro Bandeirantes que, por sua integridade moral, sua ética profissional e seu profundo respeito pelo ser humano, conseguiu que a TV Bandeirantes fosse bem sucedida neste episódio tão comovente para todos os que estiveram envolvidos nesta transição.”

Créditos do depoimento: Sergio Mattar

Cabe lembrar que Sérgio Mattar já foi um dos diretores da emissora desde a sua inauguração, em 1967.

Por conta do incêndio, a Bandeirantes começou a usar o slogan “A Bandeirantes não vai parar!“. Posteriormente, em 1972, após o canal comprar novos equipamentos Bosch para a implantação da TV em cores, a emissora atualizou o slogan dizendo: “A Bandeirantes não vai parar nos seus 5 anos!“.

Vale destacar que o proprietário do canal, João Jorge Saad, apelidou a sede onde ficam os estúdios da Bandeirantes no Morumbi, o Edifício Radiantes, de “Palácio Encantado“, porque foi o primeiro prédio projetado para abrigar especificamente uma estação de televisão na América Latina. A Rádio Bandeirantes se mudou para o local em 1965, mas a inauguração da sede foi realizada somente em 1967, quando também entrou no ar, pela primeira vez, a TV Bandeirantes.

Abaixo você confere algumas fotos da gravação de programas da TV Bandeirantes em sua sede provisória, que foi o Teatro Bandeirantes:

Ofélia Anunciato no Cozinha Maravilhosa da Ofélia | Reprodução: Folha- UOL

Hebe Camargo e Edson Cury (Bolinha) na primeira foto e na segunda foto temos Bolinha com Jair Rodrigues | Reprodução: Folha- UOL

Bolinha | Acervo: Vitoria Cury – filha do apresentador.

Hebe e Mazzaropi | Reprodução: Revista Contigo

 

Xênia e Chico Buarque  | Reprodução: Cartão de Visita

Confira abaixo também um vídeo do Especial de 35 anos da Band, veiculado no Jornal da Band no ano de 2002:

 

Em 1969, João Saad teria sido aconselhado por uma cartomante a vender a emissora por prever um incêndio. Em entrevista, ele teria dito que não acreditou porque achou que ela estivesse a serviço de algum concorrente.

Coincidência ou não, a empresa pegou fogo três dias depois. O incêndio, que teria sido criminoso, destruiu o prédio e todo o equipamento. O prejuízo foi grande, já que não havia seguro. Mas Saad soube tirar proveito da situação. Em vez de comprar novos equipamentos em preto-e-branco, a Bandeirantes foi a primeira a ter equipamento para TV em cores e saiu da crise em vantagem.

A Bandeirantes investiu desde o início em filmes, jornalismo e esporte. Para Saad, a programação tinha de ser “eclética”. Segundo ele, não se podia “elevar muito o nível dos programas, senão não haverá audiência”.

Trecho retirado (com adaptações) de uma publicação da Folha Ilustrada sobre a história de João Saad

Para repor o que foi perdido no incêndio, a emissora comprou novos equipamentos, mais modernos e em cores. 

As transmissões definitivas em cores se iniciaram em 1972, em cadeia com as outras emissoras, que transmitiram a Festa da Uva direito de Caxias do Sul. Para transmitir em cores, a TV Bandeirantes contou com apoio da rede norte-americana NBC, que lhe ofereceu o seu famoso pavão para o ajuste de cores dos televisores em suas transmissões. Para divulgar que estava transmitindo em cores, a emissora usou a frase “A imagem colorida de São Paulo” como slogan.

Apenas em 1974, o Teatro Bandeirantes é inaugurado. O espaço foi criado para abrigar os musicais produzidos pela TV Bandeirantes, que havia aumentando o espaço para programas de auditório em sua programação.

No ano seguinte, a emissora começa a ter um crescimento exponencial, para maior alcance e formação da Rede Bandeirantes, que já estava com uma boa cobertura do território nacional com seu sinal em 1978.

Em 1979  a emissora volta a investir pesado em dramaturgia e surgem produções como a novela “Cara a Cara”, com elenco de peso. No mesmo ano o “Velho Guerreiro”, Chacrinha, deixa a Rede Tupi, e assina com a Rede Bandeirantes para comandar o “Buzinha do Chacrinha”, nas noites de terça, às 21h, direto do Teatro Bandeirantes em São Paulo:

 

 

Chacrinha e Clara Nunes no Buzina no Teatro Bandeirantes em 1979 | Reprodução: Veja

Após uma grande reforma em 1980, o Teatro Bandeirantes, que foi muito badalado na capital paulista e palco de grandes atrações como os especiais musicais de Elis Regina, Chico Buarque, Tim Maia, além de gravações de programas de apresentadores lendários como Hebe, Chacrinha e Bolinha, acabou caindo em desuso com o passar do tempo. E posteriormente, não sabemos em qual data exata, acabou sendo vendido para virar um templo da Igreja Universal.

Realizamos este especial para destacar um momento importante na história da TV Band, que testificou a sua capacidade de improvisar e manter as atividades mesmo em condições muito ruins e difíceis, como o incêndio devastador de 1969, que destruiu a sede do canal no Morumbi em uma situação onde não era possível contar com a fortuna de um seguro que cobrisse esse tipo de sinistro, para dar condições de recomeçar a emissora. Antes do incêndio, a novata Bandeirantes já estava crescendo e se destacando com diversas produções na área da dramaturgia, mesmo com a concorrência forte de Tupi, Record, Excelsior e Globo. Enquanto que para a Globo, o incêndio de sua sede em São Paulo serviu mais para ajudar, uma vez que possuíam uma fortuna de seguro, que ajudou a alavancar a emissora com a compra de equipamentos de última geração, a Bandeirantes também, com muito esforço, buscou adquirir equipamentos modernos para entrar na era da TV em cores, mesmo com muitas dificuldades e crises que eram consequências do que o fogo consumiu. Ainda assim, a Bandeirantes soube trabalhar com pouco dinheiro e crescer de modo gradual. Uma das estratégias para driblar as dificuldades naquele momento, foi investir em musicais e linha de shows, que traziam bastante apelo popular para a emissora. Hoje em dia, o canal também enfrenta dificuldades em virtude de uma crise econômica no país, então é de se pensar; e se  fosse utilizada essa mesma estratégia dessa época, (início dos anos 70), para enfrentar a crise de agora também, será que, de repente, não iria produzir os mesmos resultados de crescimento alcançados, como os do fim da década de 70?

 

A imagem acima simboliza a maneira como nós enxergamos a Bandeirantes nesta ocasião descrita no especial “Memória Band”, ou seja, a Band é como uma Flor de Lótus – Uma flor que possui a capacidade de auto preservação mesmo em um ambiente cheio de intempéries e condições ruins de sobrevivência.

 

  • Foram feitas alterações e adaptações nos textos e citações dos autores, que utilizamos para a montagem deste especial, o qual relembra este momento marcante da história da Rede Bandeirantes de Televisão.